Saturday, September 14, 2002



A partir de hoje o GRAFOLALIA, que sempre contou com a presença de visitantes poucos mas fiéis e da mais alta qualidade:-)
muda-se definitivamente para o seguinte endereço:

http://grafolalia.blogger.com.br, onde espero por todos para receber de vocês 'aquela' força.
Agradeço se puderem divulgar em seus blogs.

Um abração
Joaão Antonio Bührer.

P.S Os arquivos ficam à disposição.


Angela, ainda não pude entrar na festa do Dudi, mas faço esta homenagem a você e a ele (que é padrinho deste blog) com essa dançarina, que sempre foi e será demais

Friday, September 13, 2002



Jack Kerouac datilografou seu livro On the Road (que era um manuscrito, claro, escrito com caneta Bic, pela estrada, ) num rolo contínuo.


Aqui, um close.

Monday, September 09, 2002





Dudi Maia Rosa lança a tese de que Paulo Mendes Campos seria o primeiro blogueiro.
Lendo essas maravilhas só posso concordar.
Agora vejam a dedicatória de PMC à mãe de Dudi...Não é pra qualquer um, não.



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Sunday, September 08, 2002



Salvador Dali: Leda Atomica
O ESPECTRO DA ROSA



Vagando em torno da haste
Ficou a flor do perfume;
No coração, um contraste
De liberdade e ciúme.

( Paulo Mendes Campos, in, Manchete 3/12/1968)


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Tuesday, September 03, 2002

Nos anos 60 Carlos Heitor Cony lançou vários livros de peso, muitos confessionais. Depois sumiu, andou pelo jornalismo, até ser redescoberto nos anos 90.INFORMAÇÃO AO CRUCIFICADO foi escrito em formato de diário, quem conhece a biografia do autor pode achar que é confessional, eu acho isso.O título é o vol .32, da célebre Coleção Vera Cruz, da Civilização Brasileira, lançado em 1961. Muitos romances foram escritos em forma de diário, este parece ser um deles, e este blog pretende juntar estes diários “ficcionais “ também. , de modo que não estranhem.O pedaço do diário abaixo corresponde ao começo do livro.

1944
7 de março

Dia de São Tomás de Aquino. Padroeiro dos filósofos, padroeiro da divisão. Sim, filósofo, olho-me no espelho cheio de importância, sou um filósofo, o italiano que me fez a batina nova botou no embrulho: “Ao filósofo João Falcão, no 28”, sou eu mesmo, filósofo João Falcão.
Data festiva no Seminário. Fim do longo retiro espiritual com que se inicia o ano letivo.A semana inteira em silêncio, muita capela, muita conta de rosário desfiada silenciosamente sob pátios coloniais.
Pela manhã: o jesuíta que fez as prédicas exaltou a alegria da Fé, a dignidade do Altar, a felicidade da vida cristã e devota. Convidou-nos a combater o bom combate.
Missa da comunidade celebrada pelo Senhor Arcebispo, na capela externa – nossa antiga capela colorida por vitrais de tardes de sol começou a ser demolida sob as picaretas que o Arcebispo benzeu há tempos e que deverão destruir o velho casarão bicentenário. Sobre as ruínas de dois séculos começam a edificar um seminário estranho ao meu coração.
O Deo-gratias no refeitório, pelo café da manhã. Pe. Reitor surgiu na porta principal:
- Benedicamus Domino!
- Deo-gratias!
De inicio um leve sussuro. Gradativamente o borborinho cresceu, tímido. E logo atingíamos ao tom habitual – barulho de duzentos rapazes, quase algazarra.Reencontro com o mundo, silêncio mutilado.
Habituara-me ao sossêgo daqueles dias. Sentia as palavras hostis. Ante a balbúrdia geral descobria na voz humana sons desagradáveis, todos, não é à-toa que os pássaros fogem do homem. Durante sete dias , rezara, ouvidos abertos à voz misteriosa que soa dentro, oculta-presente sempre. A Voz. Voz que um dia ouvi, inadiável: “vem e segue-me” . Fui.
Vozes:
- Passa a moringa.
- Olha a manteiga.
Olhei a moringa. Passei a manteira. Fui.
Irritação. Eduardo, a meu lado, catucou-me com o braço:
- Desembucha logo!
(Desembucha)
Falar, após sete dias de silêncio – uma capitulação. Há homens que não falam. Loucos, mudos. Ah, há também trapistas, fazem voto de silêncio. Pe. Cipriano quando esteve na Itália visitou o convento da Ordem, viu o frade velhinho que chorava quando ouvia voz humana.
Animais também não falam. Ou falam? Bolas, sou homem – um filósofo – dotado de inteligência e voz, falar é um direito, somos reis da Criação por privilégios assim.
Rei da Criação. Chamei o copeiro, mostrei a xícara:
- Olha que porcaria!
Vim ao estudo. Meu irmão deu-me um caderno grosso, lombadas verdes – completamente ridículo. Não me servirá para nada. Parece tombo de cartório, livro de Haver e Dever , algo estúpido assim.Penso em aproveita-lo com apontamentos de Lógica, mas já tenho caderno iniciado no ano passado.
Problema: que fazer do verde? Todos aqui fazem diário. Professôres há que recomendam a prática . Nunca disse nada, mas acho cretino se fazer diário. Vício manso, secreto. Não há de ser nada, vai ser mesmo diário.
A primeira página se foi.Pensei registrar tudo, não deixar um acontecimento sem registro. Acontece que não aconteceu nada – afora a mutilação do silêncio.
Há que ter história na vida de um rei – nada mais triste que rei sem história. Basta-me a lucidez: Rei da Criação. Tenho alma e uma enternidade a ganhar. Tarefa mais dura não há.

Monday, September 02, 2002

Sunday, September 01, 2002

MINHA VIDA DE MENINA, de Helena Morley, Livraria José Olympio Editôra, 6 edição, 1960.



Fina e rica ilustração de Nora Tausz Rónai, professora, ilustradora, escritora, contista,
nadadora de altas performances.


O livro tem como sub-titulo “Cadernos de uma menina provinciana nos fins do século XIX”.
Esta edição que possuo tem uma capa maravilhosa, feita por Nora Tausz Rónai, que não sei se vocês sabem vem a ser a mãe de Cora Rónai, como dá para perceber pelo sobrenome.Recentemente a Cia das Letras reeditou esta obra, mas passou em brancas nuvens, pelo menos eu não vi resenhas ou algum barulho.Portanto se alguém quiser ler a obra na integra é só ir a uma boa loja do ramo e comprar a obra. Como todo bom editor José costumava colocar prefácios muito esclarecedores, e neste caso reeditou o prefácio de Helena para a primeira edição, que foi em 1942. Na época presumo que a autora já devia estar avançada na idade e lá diz que “ Nesses escritos nenhuma alteração foi feita, além de pequenas correções e substituição de alguns nomes, poucos, por motivos fáceis de compreender.” É portanto um documento de época, raro entre nós, pelo menos no século XIX, e um bom relato de como era o interior de Minas naquela época.
Como eu fui descobrir este livro? Ora, lendo a “Professora Maluquinha “ do Ziraldo, que na verdade é um livro de memórias disfarçado, e lá Ziraldo fala na Helena Morley, que no seu tempo foi livro conhecido, portanto livro de cabeceira do pai do Menino Maluquinho.

"Têrçafeira, 10 de janeiro

Hoje Benvinda veio, com a irmã, participar a mamãe e meu pai o casamento dela com um rapaz do Serro, que foi soldado e deu baixa porque teve de cortar a perna.. Nós achamos graça no jeito dela contar a história do noivo sem perna. Ela disse: “Dona Carolina, eu venho participar à senhora e seu Alexandre que vou me casar”. Mamãe disse:
“Estimo muito.É bom rapaz? Você o conhece bem? Ela respondeu: “Bom ele é, mas muito, muito conhecimento eu não tenho, porque ele veio do Sêrro, não é daqui”. Mamãe perguntou: “Qual é o ofício dele? Ela disse : “Eu mesma não sei. Só sei que ele era soldado e deu baixa”. Mamãe: “Baixa por quê” Benvinda: “Porque tomou um defeito”. Mamãe perguntou onde era o defeito. Ela respondeu: “No pé, isto é, não é mesmo no pé, é na perna”. A irmã disse : “Fala de uma vez, Benvinda! O moço não tem perna”. Mamãe: “Coitado! Então ele não anda ? . Ela disse: “Anda , sim senhora. Anda de muleta”. Mamãe disse: “Mas você não sabe ainda o que ele vai fazer, sem perna, para vocês viverem?.” Ela respondeu: “Não pensei ainda não, mas viver a gente vive de qualquer jeito. Deus é que ajuda."